Em muitos escritórios, o ar-condicionado funciona durante praticamente todo o expediente. Mesmo assim, é comum a manutenção ficar para depois, principalmente quando o aparelho aparentemente continua gelando.
O problema é que um ar-condicionado não precisa parar de funcionar para começar a dar sinais de que algo não vai bem.
Redução do fluxo de ar, aumento do consumo de energia, odores, desconforto térmico, acúmulo de umidade e alterações na qualidade do ar podem aparecer muito antes de uma falha completa.
E, em uma empresa, isso não afeta apenas o equipamento. Pode interferir no ambiente onde funcionários, clientes e visitantes passam várias horas do dia.
Manutenção do ar-condicionado não é apenas uma questão de conforto
Quando pensamos em manutenção de ar-condicionado, é fácil imaginar apenas dois cenários: o aparelho está gelando ou não está.
Na prática, o sistema de climatização também participa da circulação, filtragem e controle das condições do ar dentro do ambiente.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) aponta que sistemas de ventilação e climatização mal projetados, operados ou mantidos estão entre os fatores que podem contribuir para problemas de qualidade do ar em escritórios. Um sistema HVAC pode inclusive se tornar uma fonte de contaminantes quando filtros acumulam sujeira e umidade ou quando há crescimento microbiano relacionado à presença de água em bandejas e outras partes do sistema.
No Brasil, essa preocupação também aparece na regulamentação sanitária. A Portaria nº 3.523/1998 do Ministério da Saúde determina que os sistemas de climatização sejam mantidos em condições adequadas de limpeza, manutenção, operação e controle justamente com o objetivo de prevenir riscos à saúde dos ocupantes.
Ou seja: manter o ar-condicionado em boas condições vai muito além de garantir que a sala esteja fresca.
1. Sujeira e umidade podem afetar a qualidade do ar
Filtros, serpentinas, bandejas de condensação e outras partes do sistema ficam em contato constante com o ar e, em alguns casos, com umidade.
Quando a manutenção é negligenciada, essas condições podem favorecer o acúmulo de partículas e, havendo umidade adequada, o desenvolvimento de contaminantes biológicos.
A EPA destaca que a presença combinada de umidade e sujeira pode favorecer o desenvolvimento de mofo e outros contaminantes. A entidade também recomenda atenção especial às bandejas de condensação dos sistemas de climatização, que precisam permanecer limpas e com drenagem adequada.
Isso é especialmente relevante em escritórios, onde várias pessoas permanecem no mesmo ambiente durante muitas horas.
2. Irritação, dor de cabeça e desconforto podem estar relacionados ao ambiente interno
Problemas de qualidade do ar interior podem estar associados a sintomas como irritação nos olhos, nariz e garganta, espirros, congestão nasal, fadiga e dor de cabeça.
Mas é importante fazer uma ressalva: esses sintomas podem ter diversas causas e sua presença, isoladamente, não significa que o ar-condicionado seja o responsável.
A própria EPA recomenda investigar o ambiente quando diferentes ocupantes apresentam reclamações recorrentes relacionadas ao conforto ou à qualidade do ar, principalmente quando os sintomas parecem ocorrer durante a permanência em determinado edifício.
Por isso, relatos recorrentes de “ar pesado”, irritação, odores ou desconforto não devem servir para um autodiagnóstico, mas podem ser um bom motivo para revisar as condições do ambiente e do sistema de climatização.
3. A qualidade do ar também pode ter relação com o desempenho no trabalho
Esse é um ponto menos óbvio e que merece atenção principalmente em escritórios.
Um estudo publicado em 2021 na revista Environmental Research Letters acompanhou 302 trabalhadores de escritórios em seis países durante 12 meses. Os pesquisadores encontraram associação entre maiores concentrações de partículas finas (PM2,5), menores taxas de ventilação, avaliadas utilizando o CO₂ como indicador, e pior desempenho em diferentes testes cognitivos.
Em 8 das 10 métricas avaliadas, condições piores de qualidade do ar foram associadas a respostas mais lentas ou menor precisão nos testes.
Isso não significa que deixar de limpar um aparelho automaticamente reduzirá a produtividade de uma equipe. O estudo avaliou diferentes fatores da qualidade do ar interior.
Mas ele ajuda a mostrar por que ventilação, filtragem e qualidade do ar fazem parte das condições de um bom ambiente de trabalho, e não apenas do conforto térmico.
4. Filtro sujo pode fazer o equipamento trabalhar em condições piores
A falta de manutenção também pesa diretamente sobre o próprio aparelho.
Filtros sujos ou obstruídos reduzem o fluxo de ar e a eficiência do sistema. Quando o fluxo fica prejudicado, sujeira também pode alcançar a serpentina evaporadora e reduzir sua capacidade de absorver calor.
Negligenciar a manutenção provoca queda de desempenho e aumento do consumo de energia, enquanto a manutenção regular ajuda a preservar a eficiência e prolongar a vida útil do equipamento.
Em outras palavras, economizar adiando uma manutenção pode significar manter um equipamento operando de forma menos eficiente.
5. Pequenos problemas podem virar reparos maiores
Nem todo problema começa com o aparelho deixando de ligar.
Um dreno parcialmente obstruído, por exemplo, pode evoluir para vazamento de água. Filtros obstruídos podem reduzir o fluxo de ar. Sujeira acumulada nas serpentinas interfere na troca de calor.
É justamente aí que entra o objetivo da manutenção preventiva: identificar e corrigir situações antes que elas se transformem em uma parada inesperada ou em um reparo mais complexo.
6. E aquele cheiro estranho quando o ar-condicionado liga?
Cheiro desagradável é outro sinal que merece investigação.
Um odor de mofo, por exemplo, pode estar relacionado à presença de umidade em algum ponto do ambiente ou do sistema, mas também existem diversas outras possíveis fontes de odores dentro de um escritório.
A EPA explica que sistemas HVAC podem contribuir para a distribuição de contaminantes quando há filtros contaminados por sujeira ou umidade, água parada em bandejas ou problemas de controle de umidade.
Por isso, simplesmente tentar mascarar o cheiro não resolve a causa.
Se o odor aparece repetidamente ao ligar o ar-condicionado, vale solicitar uma inspeção.
7. Em empresas, existe ainda a questão do PMOC
Para ambientes corporativos, manutenção de climatização também é uma questão de conformidade.
A Lei Federal nº 13.589/2018 determina que edifícios de uso público e coletivo que possuem ambientes climatizados artificialmente disponham de um Plano de Manutenção, Operação e Controle (PMOC) dos sistemas de climatização, com o objetivo de eliminar ou minimizar potenciais riscos à saúde dos ocupantes.
Também houve uma atualização importante nos últimos anos.
A antiga Resolução RE nº 9/2003 da Anvisa, muito citada em conteúdos sobre qualidade do ar, foi revogada em julho de 2024. A Anvisa passou a considerar o cenário regulatório atualizado para a qualidade do ar interior, no qual a ABNT NBR 17037:2023 é uma das referências técnicas aplicáveis a ambientes não residenciais climatizados artificialmente.
Para sistemas de maior porte, existem ainda exigências relacionadas à responsabilidade técnica. A Portaria nº 3.523/1998 do Ministério da Saúde estabelece requisitos específicos para sistemas cuja capacidade total ultrapasse 5 TR, equivalente a 60.000 BTU/h.
Por isso, empresas devem avaliar seu sistema e suas obrigações com um profissional habilitado.
Afinal, de quanto em quanto tempo é preciso fazer manutenção?
Não existe uma resposta única válida para todo aparelho e toda empresa.
A frequência depende de fatores como:
- tipo e capacidade do equipamento;
- quantidade de horas de funcionamento;
- número de pessoas no ambiente;
- características do local;
- presença de poeira e outras fontes de partículas;
- recomendações do fabricante;
- condições verificadas nas inspeções;
- planejamento definido no PMOC, quando aplicável.
A Portaria nº 3.523/1998 do Ministério da Saúde determina que o PMOC estabeleça as atividades de manutenção e suas respectivas periodicidades. Por isso, não existe um único intervalo de manutenção que possa ser aplicado de forma genérica a todos os sistemas e ambientes.
Regras como “faça manutenção exatamente a cada seis meses”, portanto, podem não refletir a necessidade real de todos os espaços.
Em empresas nas quais o equipamento funciona durante praticamente todo o expediente, por exemplo, a necessidade de inspeções e intervenções pode ser diferente daquela encontrada em um aparelho utilizado poucas horas por semana.
7 sinais de que vale solicitar uma avaliação do ar-condicionado
Mesmo sem esperar o aparelho apresentar uma falha completa, alguns sinais justificam uma inspeção:
1. Cheiro estranho ou de mofo ao ligar o equipamento
Principalmente quando aparece repetidamente.
2. Fluxo de ar mais fraco
O aparelho continua funcionando, mas parece demorar muito mais para climatizar o ambiente.
3. Temperatura irregular no escritório
Algumas áreas ficam muito quentes enquanto outras permanecem frias.
4. Vazamento ou gotejamento
Pode indicar problemas de drenagem, condensação ou outros componentes.
5. Ruídos diferentes do habitual
Vibrações, estalos ou outros sons podem justificar uma verificação técnica.
6. Equipamento funcionando por mais tempo para atingir a temperatura desejada
A perda de eficiência pode ter diferentes causas e precisa ser diagnosticada.
7. Reclamações recorrentes sobre conforto ou qualidade do ar
O relato dos ocupantes não identifica sozinho a origem do problema, mas pode indicar que o ambiente merece investigação.
Manutenção preventiva custa menos esforço do que esperar o problema aparecer
O melhor momento para cuidar do ar-condicionado da empresa não é necessariamente quando ele deixa de funcionar.
Manter filtros, sistema de drenagem, serpentinas e demais componentes em boas condições ajuda a preservar o desempenho do equipamento, controlar o consumo de energia e contribuir para um ambiente interno mais confortável.
E, principalmente em escritórios onde o sistema funciona muitas horas todos os dias, prevenção significa reduzir a chance de descobrir um problema somente quando o aparelho já está comprometendo a rotina da empresa.
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Fontes consultadas
Presidência da República – Lei nº 13.589, de 4 de janeiro de 2018: Dispõe sobre a manutenção de instalações e equipamentos de sistemas de climatização e estabelece regras relacionadas ao PMOC.
Ministério da Saúde – Portaria nº 3.523, de 28 de agosto de 1998: Regulamento técnico relacionado à limpeza, manutenção, operação e controle dos sistemas de climatização.
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): Informações e regulamentações sanitárias relacionadas à qualidade do ar em ambientes climatizados.
U.S. Environmental Protection Agency (EPA) – An Office Building Occupant’s Guide to Indoor Air Quality: Orientações sobre qualidade do ar em edifícios de escritórios, umidade, contaminantes biológicos e sistemas HVAC.
U.S. Environmental Protection Agency (EPA) – Do You Suspect Your Office Has an Indoor Air Problem?: Informações sobre sintomas e sinais que podem estar relacionados a problemas de qualidade do ar em ambientes de trabalho.
Cedeño Laurent et al. – Environmental Research Letters, 2021: Estudo longitudinal com 302 trabalhadores de escritórios em seis países sobre qualidade do ar interior, ventilação, PM2,5 e desempenho cognitivo.